DUAS MÃES – ESPERANÇAS CONCRETIZADAS

            Os dois textos bíblicos estão separados por milênios de história. História prenhe de acontecimentos alegres e tristes. Causas inexplicáveis que ocorrem a cada dia no mundo presente. Questionamentos sem respostas. Melhor, pois, não desejamos obtê-las. Tentativa de formular os nossos próprios conceitos e assim eliminar a razão da esperança que está impregnada nos textos bíblicos. Colocadas lado a lado ou sobrepostas, elas nos falam do mistério que existe no coração materno. A terna maneira de olhar um filho seja ele um bebê recém-nascido ou homem amadurecido pela crueldade da dor.

            São olhares diferentes. Em épocas e circunstâncias diferentes. Mas que têm o mesmo impulso. Olhar o filho com olhar de esperança. Convicção de que compensou gerá-lo. Amamentá-lo. Acordar durante a madrugada fria para cobri-lo. Puxar silente o cobertor que caiu no chão enquanto o pequenino crescia envolto no frio ou calor da noite. Impossível descrever e compreender os mistérios do amor de mãe. Seu toque suave. Seus sonhos não revelados. Sua dor não expressaem palavras. Suasalegrias que se esboçam no longo sorriso ao ver o filho chegar. O abraço que o acolhe ou deixa deslizar entre os dedos o filho que parte, sem dizer adeus. Sem oferecer esperança de retorno. Como seria bom acompanhá-lo, invisível, para protegê-lo do mundo mau que tenta cortar o cordão umbilical do amor materno. Ela sofre ao vê-lo desprender-se do lar. Do aconchego materno.

            Os dois textos bíblicos estão inseridos em Genesis 4.25 e João 19.25-27. No primeiro encontramos a mãe Eva a olhar seu recém nascido e expressar mensagem de esperança. Aquele filho, Sete, vinha preencher o vazio deixado pela morte de se irmão Abel. Filho sempre preenche o vazio de um sonho ainda não realizado. É o ideário de que algo bom vai acontecer com a chegada de um filho. Jesus expressou esta verdade ao falar da dor e incontida alegria da parturiente (Jo 16.21) Um conflito. Uma alegria. Um sofrimento. Um sonho. A dor que cede lugar à alegria pela alegria de ser mãe. Esquece-se a dor pelo prazer de afagar e amamentar, mesmo com dores, o fruto do amor que se entrega à nobre tarefa de gerar e ser mãe.

            Eva reconhece a perda que lhe traz à memória quão triste o pecado cometido ao desejar ser igual a Deus. Quantas lágrimas derramadas sobre o corpo ensangüentado de Abel. Quanta dor por ouvir e dialogar com a serpente no jardim. O vazio que se completa ao ver o filho homicida partir, orgulhoso para construir sua própria cidade. Longe dos pais, que deixou enlutados. Difícil imaginar a dor, o arrependimento, os muitos por quês que invadiram a mente de Eva. Mas na dor reconhece que aquele menino recém-nascido era uma dádiva divina. Deus o dera pra preencher o vazio existencial do seu caminhar diário. Isto trazia consolo e forças para prosseguir.

            Perdemos a sensibilidade nesta sociedade violenta, e perdemos muitas vezes a consciência que os filhos são dádivas divinas. Que devem ser gerados e criados como bênçãos.

            Creio, embora a Bíblia não o diga, que Eva pronunciou as palavras do texto com o rosto molhado por lágrimas. Lágrimas de alegria com sentimento de dor. Agradecida pela oportunidade do arrependimento e a certeza do perdão, que nunca falta. O Deus que lhe deu um filho e busca sem cessar se relacionar com as suas criaturas sempre está disposto a reatar a comunhão partida pelo pecado.

            No segundo texto, João 19.25-27, vemos Maria ao pé da cruz. Ela não fala. Apenas chora. Falou quando lhe foi anunciado o mistério da encarnação do verbo divino. Não conseguiu compreender os mistérios do amor divino. Apenas guardava no coração os estranhos caminhos do agir do Senhor. Cantou agradecida quando entendeu que a sua própria redenção estava garantida. A alegria da salvação suplanta a alegria da maternidade. A espada que lhe transpassa a alma jamais será explicada. A alegria de ser salva, também não. Por isso não fala ao pé da cruz. O silencio é a mais sublime mensagem do amor agradecido. Apenas chora. A dor do seu Filho é conseqüência do seu e todos os pecados da humanidade. As contorções de dor que envolvem o calvário expressam a dor do coração do Pai ao ver sua criatura lhe dando as costas. A tentativa de construir um mundo sem a intervenção divina. A maldade do pecado se faz presente em todo o seu horror naquela cruz  no calvário. Dor que une. Que gera uma nova família ao pé da cruz. Mulher, eis ai o teu filho, não pelas leis da gestação, mas pela força do amor que não desiste. Amor que irmana, que acolhe e dá significado à vida. Traz de volta o filho que o pecado roubou. Preenche o vazio dos filhos que não mais existem, não mais voltam e nos transformam em nova família. Família de Deus.

            Duas mães em situações diferentes. Ambas movidas pela esperança de que tudo que temos e somos procede de Deus-Pai. A intervenção ou interferência do pecado não consegue apagar a esperança de que da semente da mulher a cabeça da serpente seria esmagada para sempre. Mesmo que fosse necessária uma cruz para confirmar esta verdade.

            Amor de mãe se move entre esperança que um bebê traz e a cruz que o vê partir. Sem lamúrias, as mães apenas choram e sorriem. Alegram-se com as esperança e silente permanecem ao pé da cruz. Agradecidas pelas esperanças concretizadas.

            Não há como compreender e explicar o mistério do amor materno. A melhor maneira de agradecê-lo é permanecer introspectivo ao pé da cruz, agradecido pelos mistérios do Amor que concretiza a esperança.

Extraído e adaptado

 

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