FALTA DE PLANEJAMENTO A DOIS, UM SINAL DE PERIGO NO CASAMENTO

Pr. Nataniel Sabino

Tarry chegou em casa mais animado do que de costume, era dia de pagamento e ele estava feliz por ter conseguido completar o dinheiro para trocar de carro. Ao entrar em casa, encontrou sobre a mesa da sala uma lista de contas a pagar, apanhou a lista, sentou-se no sofá e seus olhos começaram a percorrer atentamente cada detalhe. Ficou extremamente surpreso com os itens relacionados, ele encontrou, entre outras coisas, o seguinte: mudança de colégio do Tarry Jr., troca da janela de madeira por uma de alumínio, primeira parcela da viagem de férias para a cidade de meus pais, etc. No final da lista, ele lê: “Beijos, te amo”. Ele foi para a cama, deitou-se ao lado de sua esposa, que já estava dormindo, e adormeceu também. No dia seguinte ele acordou mais cedo, como de costume, foi trabalhar e quando sua esposa acordou, encontrou um bilhete ao lado de sua lista de contas a pagar: “Querida, não vou trocar o Jr. de colégio porque quero que ele seja engenheiro e não psicólogo como você quer; vai ficar ridículo se você colocar uma janela de alumínio ao lado da porta de madeira e não serão possíveis todos estes gastos, pois resolvi trocar de carro, vi um modelo que me agradou muito e já fechei negócio. Outra coisa, nossas próximas férias vão ser no sítio de um tio meu que não vejo há muito tempo, já combinei com ele e não podemos decepcioná-lo, pois ele teve um enfarto e o médico falou que não pode ser contrariado. Beijos, também te amo.”

Um dos sinais de perigo no casamento é quando cada um começa a fazer seus próprios planos. Em vez de sentarem juntos e planejarem, apenas informam ao outro algumas decisões já tomadas. Em muitos casos, outras pessoas ficam sabendo mais sobre as decisões da pessoa do que seu próprio cônjuge. Isto é uma falha perigosa na relação conjugal, pois aos poucos, por esta brecha, entram outros comportamentos e decisões isoladas e, sem perceberem, os cônjuges vão se distanciando um do outro e a vida em comum fica totalmente descaracterizada e sem sentido.

Este é um sinal que aponta para uma possível desistência de se planejar e construir juntos. A maioria das pessoas se casa sabendo que precisará desenvolver uma vida em comum. Acontece que, na prática, as coisas são mais difíceis do que se imagina. Os cônjuges entram no casamento dispostos a compartilhar tudo, planejar junto, construir uma história revestida de cumplicidade com o outro, mas grande parte desses casais termina desistindo, tenta, se esforça, mas, não obtendo êxito, simplesmente desiste, deixa de acreditar nesta possibilidade. A partir da desistência, nem sempre confessada, dá-se início a uma ameaçadora divisão de decisões e ações. Muitos desistem de planejar juntos por conta do cansaço e para evitar um mal maior, tais como: desavenças, disputas, rancores, aborrecimentos, porém, são vários os motivos que podem levar os cônjuges a desistirem de planejar juntos. Vejamos alguns:

Divergências muito grandes de opiniões

As divergências, por mais trabalhoso que seja resolvê-las, fazem parte de uma vida conjugal. Marido e mulher não pensam exatamente igual em todos os assuntos; a negociação para o bem comum é uma necessidade na vida a dois. O problema é quando tais divergências atingem proporções maiores. Por exemplo: é relativamente comum o casal discutir sobre o modelo e a cor do carro que vão comprar, mas é mais complicado quando pensam diferente sobre optar pela compra do carro novo ou fazer uma reforma na casa.

Se não houver cuidado em expressar as opiniões um ao outro, com respeito mútuo, e a consideração que cada um merece, as divergências podem causar um isolamento entre o casal no assunto planejamento.

Quando o ponto de vista for diferente em questões menores, nos detalhes, não tem problema, é até desejado que seja assim, pois a combinação das ideias diferentes é que proporciona, muitas vezes, um resultado adequado. Porém, quando os cônjuges divergem em questões maiores, básicas, e não se esforçam para combinarem, sacrificam então o ato de planejarem juntos. Cônjuges que têm divergências muito grandes de opinião devem ficar atentos a este detalhe do planejamento, pois isto pode arruinar um casamento.

Falta de hábito da sociedade

Existem cônjuges que chegam ao casamento muito despreparados para a vida de compartilhamento. Pessoas que quando solteiras foram bem­sucedidas em suas decisões isoladas e desenvolveram um caminho solitário até chcgarem ao casamento, casam-se querendo repetir o modelo de vida que deu certo. Essas pessoas terão uma dificuldade muito maior em aceitar opiniões contrárias às suas, resistirão ao máximo para não mudarem suas ideias, trazendo, por consequência, uma proposta inconsciente de dominar as decisões do casal. Elas não desenvolveram o hábito da sociedade, não aprenderam a abrir mão de suas opiniões. No casamento, tudo se faz novo, abandonar o “eu” e investir no “nós” é, indiscutivelmente, o que dará poder e êxito à união.

Muitos casais não prosperam porque estão divididos, apesar de estarem casados.

Falta de exemplo dos pais

O modelo de casamento dos pais também dá uma grande contribuição na vida de casado dos filhos. Quando as crianças veem o domínio de um dos cônjuges nas decisões da família, começam a absorver tal estilo de comportamento e, muitas vezes, chegam ao casamento e adotam o mesmo formato.

Esses cônjuges tentam repetir no casamento o que aprenderam com os pais e terminam por cansar o outro provocando a desistência no planejamento a dois.

Uma mãe dominadora, por exemplo, tem a tendência de formar filhas dominadoras e filhos passivos; um pai autoritário pode gerar filhos com uma necessidade muito grande de se defenderem constantemente, e esse comportamento tende a produzir um estilo de vida caracterizado pela desconfiança do outro, e uma pessoa desconfiada terá muita dificuldade em aceitar opiniões diferentes das suas, requisito básico para quem quer construir uma vida alicerçada em um planejamento a dois.

Orgulho ou vaidade

Quantos casais poderiam viver melhor se não fosse o orgulho de um ou de ambos os cônjuges. Pessoas orgulhosas sofrem no erro, mas não mudam de opinião. É impossível uma boa harmonia conjugal se o orgulho estiver presente na relação. Pessoas orgulhosas até fingem que estão aceitando a opinião do outro, pois isto para elas é motivo de orgulho, mas, na realidade, só aceitam as opiniões que não as exponham como estando erradas. Quem não se esforça para deixar o orgulho e a vaidade de lado no casamento, não experimentará a força e o progresso que um planejamento a dois dá ao relacionamento conjugal.

Expectativas conjugais erradas

Talvez o maior vilão do planejamento a dois seja as expectativas erradas que se cria em relação ao casamento. Expectativa é aquilo que imaginamos e esperamos em relação a alguma coisa. Podem ser reais ou fantasiosas. Muitas pessoas ao se casarem o fazem com as mais satisfatórias das expectativas, casam-se com o foco naquilo que imaginam ser o casamento e não na realidade do que de fato ele é. Trazem pensamentos fantasiosos para a relação e não consistentes e reais. Acontece que no casamento, encontram uma outra pessoa, outro ser pensante que também chegou ao casamento trazendo suas próprias expectativas, normalmente diferentes das suas. Pronto, está lançado o desafio, isto é, vencer as falsas expectativas e se acertar com a nova realidade.

Pessoas que têm dificuldades para entender que é preciso avaliar suas expectativas dos tempos de solteiras e, em vez de fazerem tal avaliação e os ajustes necessários numa nova realidade, tentam, de todas as maneiras, atingir o que idealizaram sozinhas, não conseguirão traçar um planejamento consistente, ou seja, a curto, médio e longo prazos, com o cônjuge. Para tais pessoas, todas as vezes em que um planejamento a dois se afastar de seus ideais individuais, vai soar como derrota e não vitória. Nestes casos, é muito importante que a pessoa saiba avaliar e lidar com as frases de otimismo sentenciadas pelos “profetas da autoajuda”, algo do tipo, nunca desista de seus sonhos. Antes de decidir desistir ou não de seus sonhos, é preciso avaliá-los, pois casamento não implica a realização dos sonhos de uma pessoa, mas de duas. Este é o segredo da comunhão, da cumplicidade e da construção a dois. Não significa dizer que a pessoa, mesmo casada, deverá desistir de seus projetos pessoais, mas sim que tais projetos não devem acontecer em detrimento do projeto maior, que é o projeto dos dois.

Sendo o casamento uma aliança entre duas pessoas, o mesmo torna-se inadequado se a individualidade ocupa o lugar da cumplicidade; o relacionamento perde um pouco o sentido, diminui o prazer em sonhar, pois a realização dos sonhos distancia-­se a cada dia. No casamento, é fundamental ouvir o outro, pois ninguém casa consigo mesmo, nem com suas expectativas, mas sim com outra pessoa diferente que tem os mesmos direitos e deveres na construção da família.

A grande motivação num casamento é a ideia de um caminho a dois de forma prazerosa, um longo caminho, onde os cônjuges criam os filhos, brincam com os netos e envelheçam juntos sendo separados somente pela morte. Porém, sem o hábito do planejamento juntos, o sentimento de durabilidade do casamento se perde dando lugar a dúvidas e posteriormente o medo da separação.

O que fazer se o casamento está sofrendo por falta de planejamento a dois?

A primeira coisa a fazer é sentarem juntos e discutirem a importância do planejamento em comum. Ninguém se sente motivado a fazer algo do qual não esteja bem certo da sua importância. Após esta análise, combinem quais são as áreas de suas vidas que hoje mais sofrem por falta de um planejamento feito pelos dois. Trabalhem juntos na elaboração de um plano de ação, se possível, a curto prazo, isto é, nos próximo dois meses; a médio prazo, nos próximos seis meses e a longo prazo, nos próximos anos. Comecem por uma coisa de cada vez e concentrem-se nela. Se o casal já não planeja junto há muito tempo, comecem por coisas mais simples como, por exemplo, planejarem uma atividade de lazer na folga, etc. Este é só um exemplo do que pode ser feito, logicamente, cada casal vai avaliar e definir qual área deverá receber esta atenção em primeiro lugar. O mais importante, porém, não é exatamente a área que receberá a atenção e sim o fato de planejarem juntos, isto sendo repetido vai desenvolver o saudável hábito do planejamento a dois.

Outra dica importante: leiam sobre planejamento conjugal, existem bons livros que tratam do assunto e eles certamente facilitarão a compreensão do mesmo.

Conversem com casais que têm o hábito de planejar juntos, lembrem-se de que o ser humano tende a imitar o estilo de vida daqueles com os quais se relacionam, se vocês querem ter um casamento forte no planejamento a dois, procurem estar perto de casais que também valorizam esta prática.

Participem de eventos que discutem relacionamento conjugal, muito se pode aprender com estes eventos, pois eles se preocupam exatamente em auxiliar os casais interessados em uma melhor harmonia conjugal.

Por fim, tomem uma atitude, pois o primeiro passo em direção ao planejamento deve ser dado imediatamente.

Se você concordar com tudo o que leu, mas não procurar mudar, nada mudará. Porém, se você leu este texto até aqui, é porque está interessado em melhorar seu casamento e eu creio que isso já é uma atitude, já é o início de uma mudança. Parabéns! Que Deus abençoe seu casamento.

(grifos nossos)

_______________________________________

Nataniel Sabino é pastor, psicanalista e escritor. Pastor titular da Primeira Igreja Batista da Fundação/RJ, Professor de terapia familiar na EspaRJ, Terapeuta de casais há mais de 15 anos, Membro da Academia Evangélica de Letras do Brasil, Conferencista na área de família. Casado há 25 anos com a psicanalista Mônica Sabino e pai de Nataniel Jr e Filipe Sabino. Autor dos livros: Sinais de Perigo no Casamento Vol 1 e 2, Sinais de Perigo no Namoro, Vivendo Feliz em família, A Maravilhosa Viagem, Dimas o Bom Ladrão. Para adquirir seus livros: www. natanielsabino.com.br .

Texto extraído da Revista Visão Missionária (UFMBB) Ano 89, Nº4, 4T11

Anúncios

O que achou? Conta pra gente...

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s